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DEUS, O MUNDO É TEU ALTAR
REFLEXÕES SABATINAS

A vida tem coisas que são intrincadas, intrincadas coisas, na vida e nas coisas, como a vida, ela própria, é uma teia de fios que se retorcem, uns sobre os outros, fazendo da gente uma coleção de passados, um farnel de presentes, um mostruário de futuros projetados, memórias de açúcar, saudades de chumbo, tristezas de água, esquecimentos lembrados, lembranças perdidas num poço... Porque a vida é assim, uma floresta onde tem aquela árvore, na qual reside uma coruja, cujos olhos iluminam a formiga, a mesma formiga que come a folha, a folha que bebia o sol e o conduzia à raiz, que chupava os minérios e as vitaminas do solo, estes mesmos minérios que, olhados de perto, têm cristais, têm moléculas, que mais de perto ainda, se descobrem átomos girando, entrelaçados, estes átomos que os queria Demócrito, indivisíveis é que os queria, coitado, mas cada vez que se abre um átomo se descobre a partícula, e cada vez que se observa a partícula, se percebe um abismo na subpartícula, e hoje se começa a concluir que ali, naquele abismo invisível, intocável, ali mora Deus, com seus músculos, seus silêncios, sua força, serena força, inigualável força, que dá sentido a tudo e faz de tudo o um... Esse Deus tão calado de boca e falante de gestos e obras, cheio de escritas pra cada um de nós, escritas pessoais, cartas particulares nas nuvens, nas crianças, nos berços, nos currais, nos jardins, na maravilha, enfim, Ele, todo ouvidos e olhos prá nós, tecelão de horizontes, arquiteto de humanidades, jardineiro de galáxias, esse Deus que olha de fora do Universo, enquanto é Ele mesmo o Universo, como um oceano de prata e ouros e fogos onde flutuam tanto os planetas menores, tanto as estrelas perdidas, quanto nossas maiores esperanças... Esse Deus que demonstra que nada é só o que se olha, porque vemos pouco, míopes que somos, porque nossos olhos são pequenos, e porque usamos telescópio onde necessário o microscópio, e porque apontamos lunetas para átomos, que por inapropriada lente, assim ficam ocultos, mas que lá estão, rindo de nós, de nossos darwinismos primários, dos nossos quantas ridículos, da fé burra, da razão sem fé, essas muletas de uma perna só que nos levam, mancos seres que não percebem o todo e só querem a parte, esquecendo que a vida é inteireza e completude... Por isso é que o ar que respiro agora, sei que tem poeiras, tem ácidos, tem memórias e lembranças que irão a meus pulmões me dando tanto oxigênio benfazejo, quanto bactérias, estas, que porão a trabalhar meus anticorpos, pra que não fiquem frouxos, pra que tenham saúde, esses soldados do organismo, e este ar que em mim ingressa vai virar alguma forma de tônus, de conexões neurais, de usinas de calor que me farão bater o coração no peito, e assim o ar correrá meu sangue pelas veias todas, far-me-á um calafrio, e que desembocará numa palavra, esta mesma palavra que no papel, debaixo da tinta, esconde, portanto, este mesmo ar, disfarçado, travestido, convertido, transformado, este ar que é na verdade sentimento e que se torna palavra, palavra que bebida por um coração aberto se fará sangue, correrá veias, virá aos pulmões e, quem sabe, se transformará em suspiro, colocando na atmosfera novos sentimentos, que abrirão suas asas e aspirados por outras almas, irão gerar novas palavras... Porque a vida é assim, aquilo que vem de você, de bom ou de mal, me completa, e mesmo quando me rói, me estrutura, porque reforça outra musculatura, porque as coisas estão aí, ligadas, interligadas, interpenetradas, como os fios de uma corda, finos, frágeis, mas que unidos levantam a ponte que leva do castelo aos paraísos que moram após o abismo. Porque a vida é intrincada, texturizada, tecida, cerzida, teia, trama, rede, fiação, cabeamento, renda, fuxico, costura, rima, quadra, redondilha, trança de menina, a vida é. Cuida, portanto, do fio que você nisso tudo significa, cautela com o fio que em ti se enrosca, que a vida seja zelo e algodão do bom, linha firme e agulha reta, pra que haja à tua volta equilíbrio e bom tecido para as mantas que acolherão o sono das crianças. ****
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 17h50
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UM CULTO DAS CRIANÇAS

Ontem fui a um culto, na 2ª Igreja Batista em Petrópolis. Foi dedicado ao dia da crianças.
E não podia ter sido melhor, porque os corais, quartetos, lideranças... todos, se vestiram de crianças, por dentro e por fora... Ah, meu camarada, foi i-nes-que-cí-vel! Tinha diácono vestido de Homem Aranha; lideranças que se pintaram de verde sob camisetas em trapos, pra fazer o Hulk; o diretor da Escola Dominical vestido de Super-Homem, de capa e tudo! Até o Chapolim colorado apareceu subindo nos bancos!!! As crianças estavam sentadas no chão da igreja, na frente do palco. Depois dos esquetes – engraçadíssimos! - os ‘heróis’ se acomodaram entre elas, com seus uniformes e capas, pra ouvir a mensagem em que se explicou o verdadeiro super-herói, imune a kriptonitas, que é Jesus.
O coral Celebrai, do competentíssimo Maestro Júlio, entrou com seus rapazes e senhores com bonés de skatista atravessados na cabeça. Os naipes femininos, com arquinhos de antena de abelha, coroas de serpentinas coloridas, ou estrelas de prata, cantando com uma alegria transbordante de gestos e coreografias, a história da Arca de Noé. Um quarteto vocal daqueles dos bons tempos, quatro vozes lúcidas e harmonizadas, com baixos de verdade, tenores de cristal, imitou animais, miou, mugiu, cacarejou, escangalhou as crianças de rir.
A igreja cheia de bolas coloridas nas pilastras, arcos na entrada e no palco. Os adultos todos ali, rindo aquela risada pura, com gosto de berço. As crianças ali, luzindo como pepitas do ouro de Deus. Vi um velhinho lá no fundo, cortando suas lágrimas com as costas da mão. Uma dona de casa fazendo coreografias e abraçando as pessoas ao ritmo da canção dos pequenos, com lágrima nos olhos. Leituras bíblicas? Crianças as fizeram. Orações? Crianças entregaram suas preces doces, daquelas que entram direto no céu, sem pedir licença, são de casa, afinal.
O que é melhor? Tudo muito espiritual. A estranha reverência da alegria. Ou a incompreensível irreverência do espírito. Lembrei das festas judaicas. Lembrei de Jesus dizendo entre risos, a enfezados apóstolos, enquanto um menino puxava sua barba: “Deixar vir a mim as criancinhas... É delas, o Reino dos Céus!”. Ou então, com uma criança encarapitada no cangote: “Necessário vos é nascer de novo”, ou seja, tornarmo-nos crianças. E o que vi ali, naquela igreja abençoada? Simplesmente crianças miúdas, de 05 anos, rindo e cantando louvores, indo ao colo de Cristo. Mas, acima de tudo, vi crianças de 50 anos, de 80 verões, crianças curtindo essa infância que é a essência do espírito, esquecidas de problemas, desopilando as tragédias, cuspindo num riso os engasgos da alma... indo ao colo de Cristo!
Foi inesquecível pras crianças. Foi inesquecível pros adultos. Foi inesquecível pra Deus. Uma pureza se ergueu daquela igreja reunida em família, como aroma de bom sacrifício, ensinando que a vida é alegria, mesmo com percalços, mesmo com tropeços e sustos... A vida é alegria.
Faça a cada manhã no seu coração, uma festa assim. Decore a alma com balões de gás e pirulitos de feira. Confeite o seu dia com purezas e louvores límpidos. E lembre que Deus é Deus de alegrias.
Trinta sermões não diriam o que o regozijo coletivo e harmonioso ensinou ontem a quem estava naquela igreja, de pastor recentemente falecido (Edelto Barreto Antunes), mas cujo exemplo e liderança deixou justamente essas sementes, essas flores, esses louvores. Afinal, ele era o cara que interrompia o sermão pra descer do púlpito e dar um abraço naquele fiel que não via há uns meses. Adeus, cerimônia! Vale o amor, este era o seu lema. Foi o que, ontem, vi. O império do amor. Porque é assim que Deus é.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 09h51
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A MOLECADA DA BATISTA CENTRAL

A convite do Pr. Josué, passei a manhã de hoje com uma molecada bacana lá da Igreja Batista Central. Eles faziam uma espécie de retiro, num sítio ali no meio da serrinha pra Guapi. Num frio danado de bonito, no meio de sólidas árvores, limpas águas correntes, terra cheirando manhãs, a gente conversou muito sobre os dramas do jovem cristão.
Num mundo que desaba, a mídia invade até santuários sagrados. Muitos adolescentes ficam desancorados no meio disso, empurrados daqui prali por ventos de modismos, igrejas afrouxadas, e cultos (ou missas) mais aeróbicos que consagrados. Lá no fundo, uma pontinha de dúvida, um comichão de fé, uma consciência que pesa, mas o maremoto da hora acaba arrastando intenções à vala da comum omissão. Igrejas viram clubes de sociabilidade ou abrigos de aparar tempestades. Lugar pra caçar namorados, que escassos são. Quando muito, refeitórios, pousadas pra revigorar a semana.
Mas, não posso criticar igrejas. Já o fiz muito. Aprendi que Deus faz sua obra com o que surge. Que nem nutricionista que ensina a fazer farofa de casca de banana, molho de casca de cebola, essas coisas... Deus usa o que tem. Frutas da estação, saca? Garrafa pet, entende? Se é um profeta gago, em dobro ele profetizará. Se são pedras, são pedras. Ele as faz cantar. Se são igrejas que racham, que rachem, Ele as tornará sementes. Algo de bom, em algum lugar nascerá. Mas é ruim quando a perda chega, a grande igreja se esfacela. Parece que os que ficaram só tem uns cacos, impossíveis de colar. Conselho de amigo: Quebra tudo, produz farinha, faz uma massa e recomeça do zero. O que foi, foi. Belo é o amanhã que virá. Reciclar, é a melhor ordem. Chorar no ombro dos ontens não ajuda o amanhã.
Pois, com esse espírito é que conversei com aqueles adolescentes bacanas, daquele meu jeito meio estropiado, obrigando todo mundo a cantar, eles com um frio e um sono danado e eu lá, esticando conversa. Ah, é frio, não tem problema, vamos pro sol!!! E terminamos a conversa debaixo do sol bonito que se esgueirava no frio. Aí, choveram sorrisos.
Falamos de grandes exemplos. Rosa Parks, Luther King, o profeta Daniel, José do Egito. Falamos dos sonhos que devemos cultivar, viver, produzir. Falamos que é possível não ser arrastado pros bueiros da droga, do sexo, da vida vazia, do consumismo fútil, como a mídia e a sociedade omissa fazem com a maioria desavisada.
Depois eles iam comer um feijão bacana, mas eu tive que vir embora. Mas valeu muito, molecada. Que Deus abençoe vocês!!! Vocês tem no corpo a juventude, no coração a mensagem, na cabeça a intenção... Hora da batalha, amigos. Como disse o Apóstolo João: "Jovens, escrevi pra vocês, porque vcs são fortes!!!"
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 20h14
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SALMO 23
O Senhor pastoreia meu coração de terra. Conduz minhas reses ânsias e bois pesadelos para o curral dos tranquilos. Ele tosqueia seu pelo e assim, angústias viram tapetes. Feras ontem temidas, hoje afagam os pés do meu sono tranquilo.
O Senhor pastoreia minha vida. Ele conduz-me debaixo de tempestades a mares tranquilos. O chicote da areia nos ventos vira uma orla branca de sonhos, com águas verdes onde minha alma mergulha.
O Senhor pastoreia meus medos. Nos vales, nos submarinos, nos cárceres, ele trouxe-me lumes, velas, lâmpadas, como corvos traziam pão para Elias. Como o profeta, essa luz eu comia.
O Senhor pastoreia meus sonhos. Ele os dispõe numa mesa, numa praça, como um banquete de frutas, na presença dos que me atacam, mas os mendigos comem comigo. Isso é o que importa.
O Senhor me pastoreia. Nada nunca faltou. Nada jamais faltará.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h08
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O MENINO E A GOTA

O garoto ficou olhando a gota de água, na concha da mão.
O garoto ficou olhando a mão entortada, na lente do olho da água,
na palma depositada.
O garoto viu a nuvem passando na micro-lagoa da mão.
O garoto viu Deus espiando, sorrindo, de dentro da nuvem,
Deus, ali, na água da palma da mão.
O garoto, então, bebeu a gota, como se fosse uma limonada da vida.
Chegou em casa babando a ceia do açúcar divino.
O garoto, hoje, na mesa de trabalho, sempre que precisa,
e precisa sempre, rumina aquela água.
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 14h10
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EQUILIBRISMO DIVINO

Deus me concedeu um coração aos saltos.
Um coração Jadel Gregório entre pulmões de tísico.
Deus me concedeu uma teia como espírito.
Mas uma vontade bigorna com plumas de alto
Ah, Deus é muito engraçado.
Faz da nossa vida uma espécie de circo.
Por isso nem sempre podemos ser sérios.
Por isso não cabemos tão trágicos.
Por isso, igualmente, não há só os risos.
Ah, a lágrima, lágrima... a lágrima!
É ela que esguicha os equilíbrios.
Por isso, após um tempo de arena,
a corda bamba nem treme.
Somos tortos pro lado inverso ao da queda.
Deus é um sábio.
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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 18h48
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